terça-feira, 9 de junho de 2015

O Jogo da Imitação, o Boticário, o FaceGlória e a Família Tradicional Brasileira.

Se aquela menininha estivesse usando um vestido
preto, ela daria uma excelente Wandinha Addams.
Há algum tempo que eu planejo escrever sobre o assunto. Na realidade, já comecei a fazê-lo duas ou três vezes, mas sempre acabava deixando de lado. Por falta de tempo? Não. Eu estou há sete meses de férias. Por preguiça? Talvez, esse é um dos meus maiores defeitos. Total tristeza ao tratar da temática. Possivelmente. Afinal, analise o cenário: estamos no século XXI e eu estou prestes a escrever um texto em defesa dos homossexuais. E não é só porque eu quero falar sobre o assunto ou necessidade de gerar polêmica ou qualquer absurdo argumento que alguém poderá encontrar. É simplesmente a necessidade, que nos foi - mais uma vez – demonstrada após as inúmeras reações negativas frente ao comercial da franquia de beleza ‘O Boticário. ’ 

Eu não me recordo a primeira vez em que vi a famigerada propaganda. Deve ter sido na televisão, porque no YouTube  eu provavelmente não teria chego até o fim.  Lembro que ela me chamou atenção sim, pelo fato de um dos homens se parecer muito com o Aécio Neves.  Nunca poderia imaginar as proporções que um vídeo de trinta segundos poderia tomar. Até mesmo porque a tradicionalíssima joalheria Tiffany&Co já havia lançado um anúncio abordando o tema, tanto em um vídeo quanto em uma fotografia. Ambos esplêndidos, com uma elegância já característica da marca. O acontecido até ganhou divulgação, mas não com ar pejorativo como houve, pela parte de alguns, aqui.

Observar as leis de cada país em relação à homossexualidade é uma experiência curiosa. A França, o mesmo país que permitiu que as mulheres votassem somente depois de 1945, considera o ato legal desde 1791. Já o Brasil, que autorizou os relacionamentos alguns anos mais tarde, em 1830, antecipou-se quanto o sufrágio feminino, em 1932. Junto com o exemplo do Reino Unido, podemos desconstruir um paradoxo em que sempre se relaciona o desenvolvimento de um país com sua democraticidade.  

Na Terra da Rainha ser gay era crime até 1967, mas a idade mínima de consentimento era de 21 anos. Em 2000, a idade foi reduzida para 16 anos e só em 2003 as leis se tornaram igualitárias. Infelizmente, não foram poucas as pessoas que foram castigadas pela insanidade de leis conservadoras. Estima-se que entre 1885 e 1967, aproximadamente 49.000 homossexuais foram condenados por obscenidade na Grã-Bretanha.  Entre eles estava o matemático Alan Turing, cuja história é retratada no filme ‘O Jogo da Imitação’. 

O longa-metragem ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, conta a história de um garoto desajeitado em com dificuldade nas relações sociais. Na escola sofreu, mas também conheceu Christopher, que iria transformar o rumo da sua história. Foi ele que introduziu Turing ao mundo da criptografia, uma arte de desvendar aquilo que todos podem ver, mas que não nem todos conseguem entender.  Durante a segunda guerra,  o cientista, interpretado pelo maravilhoso Benedict Cumberbatch, desenvolve uma máquina para descriptografar as mensagens alemãs. Sua invenção além de ser o embrião daquilo que hoje nós chamamos de computador, e estima-se que ela ajudou a encurtar a guerra em dois anos e que 14 milhões de vidas foram poupadas por isso. A de Alan não foi uma delas. Ser submetido à terapia hormonal obrigatória para castração química o levou ao suicídio aos 41 anos. Em 2013, a Rainha Elizabeth II concedeu o perdão real a Turing, honrando tardiamente tudo o que ele fez pelo país e pela humanidade.

Mas hoje, temos a impressão que muitos considerariam a crueldade justa. Ou talvez não pudéssemos falar do filme na mais nova rede social, o FaceGlória, voltado ao público religioso. A ideia de um instrumento para o compartilhamento de informações de pessoas com a mesma fé é interessantíssima. O que preocupa é o conceito de omitir informações de usuários e de controlar aquilo que será divulgado. A censura nunca será um método eficiente, muito menos ético para a implantação de valores morais, por mais deturpados que eles sejam.

Mas hoje, temos a impressão que muitos considerariam a crueldade justa. Ou talvez simplesmente não pudéssemos falar do filme na mais nova rede social, o FaceGlória, voltado ao público religioso. A ideia de um instrumento para o compartilhamento de informações de pessoas com a mesma fé é interessantíssima. O que preocupa é o conceito de omitir informações de usuários e de controlar aquilo que será divulgado. A censura nunca será um método eficiente, muito menos ético para a implantação de valores éticos morais, por mais deturpados que eles sejam. 

A tradicional família brasileira precisa parar de assim se autodenominar, pois o termo ao invés de ter um significado de positivo, como do chá das cinco, hoje já é sinônimo de reacionarismo e intolerância. Características essas que não deveriam estar presentes em nenhuma família seja ela tradicional ou não.

E quanto às relações homoafetivos, por favor, ocupe seu tempo com outra atividade que não seja criticar um comercial. Leia, vá ao museu, assista a um filme, viaje. Talvez assim seus horizontes se expandam e a amargura que o faz renegar os relacionamentos entre dois seres humanos vá embora. Mas se isso não acontecer não se preocupe, você sempre encontrará alguém que pensa como você.

Lamentavelmente. 

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