quarta-feira, 24 de junho de 2015

Capítulo 8, 54 dias, Festival de Cinema Francês e Amizade.

Que foto poderia resumir melhor o assusto da postagem que essa
minha e da Martina em Paris? 
Desde 2010 acontece em diversas cidades do país o Festival Varilux de Cinema Francês, patrocinado pela multinacional francesa Essilor/Varilux, Embaixada da França, Aliança Francesa, Air France e outras instituições. O principal objetivo é difundir a cultura e mais especificamente o cinema desse país que eu tanto adoro.

Conheci o projeto em 2013 enquanto ainda estudava a língua na Aliança Francesa aqui de Curitiba. O longa escolhido foi Adeus, Minha Rainha do Benoît Jacquot. O motivo era bem simples: falava sobre uma de minhas rainhas favoritas, Maria Antonieta. Infelizmente, quando chegamos na bilheteria já não havia mais ingressos. A minha decepção foi bem visível, mas acabamos assistindo a outro filme, que não fazia do evento.

Ano passado eu e a Martina, que para quem não sabe é uma das melhores amigas do mundo todo (além de uma cinéfila incorrigível), fomos assistir Yves Saint Laurent, com Pierre Niney. A cinebiografia do magnífico estilista que tornou preto e azul-marinho uma combinação elegante, mostra os pontos altos e baixos de sua carreira e vida pessoal. É interessante para os amantes do cinema e  simplesmente indispensável para os amantes da moda.

Já nesta edição, decidimos aproveitar que passamos um tempinho sem nos encontrarmos para matar a saudade de vez. Almoçamos no Shopping Crystal, onde encontra-se o Espaço Itaú de Cinema que sedia o festival aqui em Curitiba, e ficamos conversando até a primeira sessão começar. Sim, nós optamos por ver dois filmes seguidos e foi uma das melhores experiências cinematográficos que já tive! É muito comum eu assistir a várias produções seguidas (o meu recorde são cinco em um único dia), mas isso nunca havia sido feito no cinema.

O primeiro filme era O Diário de Uma Camareira (Jounal d'une Femme de Chambre), dirigido por Benoît Jacquot e como Adieux, Ma Reine, estrelado por Léa Seydoux. Ambientado em 1900, os 96 minutos de duração são utilizados para apresentar, aleatoriamente, trechos da vida de Célestine. Obviamente, ela não tem uma vida exatamente ordinária, pois como disse Alexandre Dumas (filho) 'se essa fosse a regra, não valeria a pena escrevê-la'. Com uma personalidade forte e um tanto arredia, a camareira inicia seus trabalhos em uma cidadezinha do interior, onde a interação com os sua exigente patroa, seu insolente marido, um vizinho louco, amigas perturbadas e um pretende de caráter duvidoso geram cada vez mais histórias para Célestine incrementar seu repertório.

Baseado em um romance de Octave Mirabeau, publicado em 1900, o filme satiriza as frágeis relações entre patrões e empregados. Além da versão de Jacquot, a obra já foi adaptada outras três vezes: em 1916  por um cineasta russo, em 1946 por Jean Renoir em uma produção estadunidense e em 1964, em francês, pelo espanhol Luis Buñuel (conhecido por A Bela da Tarde, Belle de Jour, protagonizado por Catherine Deneuve). Infelizmente, ainda não consegui assistir às outras versões, que foram muito mais aclamadas pela crítica. Eu, pessoalmente, gostei da produção em geral. Sim, você sai do cinema sem saber exatamente o que aconteceu, após cenas e cenas serem quase que randomicamente jogadas na tela, mas a proposta condiz com o título: um diário. É como se você estivesse folhando as página dos registros pessoais de alguém, que é realmente um fruto de seu meio. Em um ponto da trama, Célestine conta a origem de seu posicionamento quanto à sexualidade humana. E é realmente triste, assim como a banalização de abusos sexuais pelo cotidiano. Não sei dizer até que ponto nós evoluímos ou retrocedemos quanto ao assunto, afinal, ainda discutimos a legalização do aborto e se o uniforme das babás interferem ou não em seu trabalho e dignidade. Mas posso afirmar que este filme fará você repensar o seu ambiente social e o papel que todos nós desempenhamos nele de uma maneira lúdica que beira ao cinismo.

Depois de uma pausa de vinte minutinhos (e cafés gigantes do quiosque perto do cinema) iniciamos Hipócrates (Hippocrate, originalmente), um 'drama' médico. O filme foi escolhido por razões bem simples também: a Mar estuda para tornar-se médica e eu gosto de médicos (vide Grey's Anatomy). Apesar da história, dirigida por Thomas Lilti, ser mais objetiva que a anterior, ainda sim é conduzida de forma vagarosa que nos leva à reflexão. Benjamin, um recém-formado, começa a trabalhar em um hospital comandado por seu pai. Só que lá ele encontra muitos problemas que acabam por afetar diretamente a vida de seus pacientes. Junto a tudo isso, temos também a presença dos médicos árabes no local de trabalho parisiense, que precisam lidar com as diferenças culturais e com a apreensão dos nativos. É impossível não comparar a situação com a vinda dos profissionais cubanos para com o programa Mais Médicos.

A desglamourização de uma das carreiras mais elitizadas é o ponto forte do filme, que mostra a realidade com extremo decoro. A sensibilidade que já é parte do esteriótipo do cinema francês encanta e nos faz desejar que a prática de todas as ocupações fossem assim apresentadas.

O dia então desenvolveu-se produtivamente e me fez pensar o quanto eu sentiria falta do Festival Varilux. Resolvi então pesquisar se um evento parecido acontece em Coimbra e a resposta, felizmente foi positiva. A Festa do Cinema Francês acontece no segundo semestre há quinze anos, em diversas cidades portuguesas. Problema resolvido. Mas o que farei eu quanto às amizades? Sem uma companheira que apesar das inúmeras - e por inúmeras eu digo muitas - brigas continua sendo uma das melhores companhias que alguém pode ter, com o assunto entre nós sendo praticamente infinito? E que podemos ficar dias e dias sem nos falarmos, mas quando isso finalmente acontece, parece que nenhum tempo passou?

Bem, acho que centenas, milhares de pessoas já tiveram esses pensamentos. Eu mesma já passei por isso, chorei, e só envolvia a mudança entre cidades do mesmo estados, não diferentes continentes. A última opção, no entanto, não poderia ter sido melhor retratada quanto na série televisa de Shonda Rhimes,

Grey's Anatomy é, como já dito aqui, uma de minhas séries favoritas, com uma das personagens que mais me inspiram. Como se isso e a ambientação médica não bastassem para que o drama pudesse ser aqui contextualizada, o programa ainda criou uma das mais belas definições de amizade que poderiam existir. A relação entre Cristina Yang e Meredith Grey é, sem dúvida alguma, a mais realista de todo o show. Elas se amam, elas se odeiam, elas quase se matam e se abraçam minutos depois. Elas criaram a expressão 'você é a minha pessoa'. A pessoa para quem elas ligariam para ajudar a arrastar o corpo, caso tivessem assassinado alguém. A pessoa com quem você sempre pode contar, mesmo quando estão em países diferentes. No caso delas, Estados Unidos e Suíça. No nosso caso, Brasil e Portugal.

Porque eu posso dizer, sem sombra de dúvidas, que eu encontrei a minha pessoa. Que diz que o segredo para algo parecer verdade é falar com confiança, que me acompanhou na minha primeira viagem para o exterior, que me ensinou a gostar de Chico Buarque, e que me convidou ( e na maior parte das vezes deixou eu me autoconvidar) para ir na sua casa, e que também passou algumas tardes aqui em casa, uma delas falando que ia tirar um cochilo de 10 minutinhos que se tornaram 9 sinfonias do Beethoven. Enfim, o mais  próximo que um dia eu terei de uma irmã (assim eu espero, mãe).

Então Mar, se você estiver lendo isso (e é bom você estar, porque eu te mandei o link!) saiba que não importa onde nós estejamos morando, ou o que estejamos fazendo, você sempre, sempre, sempre poderá contar comigo. Amigos são a família que nós escolhemos e eu escolheria você infinitas vezes para fazer parte da minha. 

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