terça-feira, 7 de abril de 2015

Sobre a Cinderela do Século XVII, dos Anos 50 e de 2015


Acho que depois dessa foto, tem glitter pela casa toda.

Algumas vezes, durante uma conversa entre amigas, comentando sobre memórias de infância, surge uma questão: qual a sua princesa favorita? Muitas respondem a Bela, pois ela era inteligente e corajosa. A Mulan, que fugiu de casa pelo seu pai e salvou seu país. Ou qualquer uma das outras populares personagens da Disney. Só que não foi nem uma, nem duas vezes que eu senti um ar de desprezo quando eu contei que a minha princesa favorita é a Cinderela. 'Mas ela é fútil, machista e alpinista social.', como adoram dizer isso. 'Ela depositou toda a sua esperança em um homem, ela não é um bom exemplo para as garotinhas.' E eu nunca me importei com os comentários nada embasados, eu me contentava com a lembrança de meu pai me contando a história para dormir e das inúmeras vezes em que eu assistia à fita de vídeo (a minha mãe precisava esconder o filme para eu não vê-lo novamente). Mas quando foi anunciada uma nova versão do clássico, a polêmica retornou. Será que depois de uma onda de filmes de tendência feminista, como Frozen e Valente, a Disney voltaria a inspirar meninas a dependerem de um homem, e não salvarem a si mesmas?

Popularizada nos séculos XVII e XVIII pelo escritor francês Charles Perrault, e imortalizado pela Walt Disney Studios no início dos anos 50, a história pede cautela ao ser analisada. Pois acredito que pior do que todas as rotulações dadas à personagem, é a desinformação. Afinal, analisando a datas citadas anteriormente, poderemos obter conclusões extremamente esclarecedoras quanto às acusações feitas a 'Cendrillon'.

Era 14 de maio de 1643, morria Luís XIII e subia ao trono Luís XIV, o Rei Sol. Símbolo do Absolutismo e famoso pela sua frase 'L'État c'est moi', ele apreciava o luxo. Ordenou a construção do Palácio de Versalhes, que se tornou a moradia oficial da família real e da corte francesa. Organizava bailes, com muito champagne, bebida popularizada por ele. Amante da moda, teve para ele desenhado pelo estilista da corte uma curiosa invenção: o salto alto. Qualquer relação com o conto de Perrault, não é mera coincidência.

Fim da Segunda Guerra Mundial, os homens retornavam as suas casas, aos seus trabalhos nas fábricas. As mulheres, forçadas a sustentarem as casa na ausência dos maridos no período de conflito, conquistaram liberdade em seus atos e especialmente em seus vestuários. A altura da saia havia subido, a lingerie desconfortável havia sido substituída e a calça foi por muitas adotada. Mas as mudanças não agradavam a todos, as esposas deveriam reassumir seus postos dentro de casa. E a imposição de uma moda mais 'feminina' veio de cima. O mestre da alta-costura Christian Dior difundia o New Look.  Em fevereiro de 1950, a Walt Disney Pictures lançava Cinderela nos cinemas norte-americanos. A história fala sobre uma jovem de valores tradicionais que realiza seus sonhos através de um casamento. 

2015. Em meio a um espírito crítico da população, Cinderela retorna às telas. Com valores tradicionais, a menina Ella é instruída pela mãe a ter coragem e ser gentil. O lema é repetido inclusive por Kit, o Príncipe Encantado mais charmoso de todas as adaptações da história. Mas alterações importantes foram feitas. Um guia moral é colocado na história e esse diz que onde há gentileza, há bondade. E onde há bondade, há magia. 

Todavia, a modernização do conto não veio com um celular substituindo o sapatinho de cristal ou com a personagem principal abdicando do trono. É uma jovem, que ao contrário do que muitos acreditavam, não é passiva. Ela é resiliente. Possui a capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir a situações adversas sem entrar em surto psicológico. E a nova versão explica isso com a ajuda de uma interessante narrativa. É uma jovem que se destacou dentro de seu contexto, e não foi transformada pelo meio onde viveu, apesar de ter se adaptado com o hostil ambiente.

E tudo isso acontece com atuações, fotografia, figurino e trilha sonora impecáveis. Lilly James, que interpreta a Lady Rose na série britânica Dowton Abbey, encanta com seu sotaque e com a sua beleza nem um pouco óbvia. Muitos criticaram a aparência da atriz, dizendo que esta não era suficientemente bela para o papel. E não poderia estar em maior desacordo. Cate Blanchett foi uma madrasta tão elegante que quase se redimiu de suas maldades. E Helena Bonham Carter, como a fada madrinha, foi Helena Bonham Carter. Espetacular como sempre. 

E depois de duas sessões (sim, eu fui duas vezes ao cinema para assisitir ao filme. E pretendo ir novamente), volta-se para casa com uma sensação de paz maravilhosa, cantarolando as músicas do filme. Olhando para a minha caixinha de música da Cinderela. E para o meu DVD da Cinderela. E para a Barbie da Cinderela. E para o chaveiro da Cinderela. E para a boneca da Cinderela. E para o vesido da Cinderela. E para as duas fantasias da Cinderela. Acho que deu para entender o porque da crítica tão positiva do filme, não?

♫ ♪ Lavender's blue, dilly, dilly, lavender's green,
When I am king, dilly, dilly, You shall be queen. ♪ ♫

4 comentários:

  1. Assisti ao filme ontem! Fui mais pela Lady Rose mesmo (eu amo muito essa personagem) e acabei gostando bastante da adaptação - se não fosse pela falta de músicas, diria que é BEM melhor que a animação, que nunca foi minha preferida da Disney, com todo o respeito.
    A Ella do filme dá um exemplo de temperança (que é a palavra de ordem da minha vida há alguns meses, acredito que seja uma das melhores virtudes possíveis) e de resiliência, como você mesma disse. Ela e a madrasta (sim, Cate Blanchett está maravilhosa e incrivelmente parecida, nos trejeitos, com sua equivalente desenhada) são personagens tão opostas no modo de lidar com as mudanças e a tragédia e tão humanas que só por elas o filme já vale a pena! O príncipe, infelizmente, ficou meio apagado, até... Mas gostei do tipo que escolheram pra fazer o papel dele. Não é um cara obviamente lindo (assim como a Lily James), mas encantador.
    Gostei da sua crítica, porque também gostei do filme. Não vou negar, saí do cinema dando uns gritinhos e chiliques de tão linda que achei a cena final.
    A amiga que me acompanhava falou: - Não sabia que você gostava tanto assim de Cinderela!
    Respondi: - Nem eu...

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    1. A Lady Rose é maravilhosa, não? Só me fez querer ainda mais ver o filme!

      E o príncipe... Ah, o príncipe! Hahaha. Ele ficou um pouco apagado devido ao maravilhoso trio principal (Cinderela, Madrasta, Fada Madrinha), mas se comparado ao filme dos anos 50, ele tem um destaque bem maior! Sabemos até o nome dele! Haha Mas o charme dele é inegável... Aqueles olhos!

      Mas o que eu tenho a dizer é bem-vinda ao maravilhoso mundo de Disney. Ops, da Cinderela. Haha



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  2. Olá Luiza, depois dessa crítica tão bem elaborada...fiquei com vontade assistir o filme. Parabéns!!!

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    Respostas
    1. Oi, Meryna!

      Assista sim ao filme, você vai adorar! E você sai da sala de cinema com uma sensação maravilhosa!

      Beijos!

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