quarta-feira, 15 de abril de 2015

De roupas íntimas às intimidades presidenciais

Sim, essa é a Hillary Clinton em 1969.

É inegável as inúmeras transformações ocorridas em nosso cotidiano devido à ascensão das mídias digitais. Tarefas rotineiras como pegar um ônibus ou um táxi foram simplificadas com aplicativos para smartphones. Manter contato com alguém que se encontra a centenas de quilômetros de distância não depende mais de caríssimas ligações telefônicas. Ou até mesmo encomendar um artigo produzido do outro lado do mundo. Entretanto, não foram somente acontecimentos banais que tiveram seu curso alterado nos últimos anos. Um excelente exemplo é a onda revolucionária que se propagou no Oriente Médio, conhecida como Primavera Árabe. Muito bem retratado no documentário The Square, a utilização da redes sociais amplificou a participação de manifestantes na rua, de uma forma que qualquer passeata brasileira anticorrupção aspira.

Mas se esse foi um movimento que ganhou forças com a utilização dessa ferramenta, outros foram desvalorizados. Basta fazer uma rápida consulta pela internet para constatar o quanto os ideais feministas se tornaram fonte quase que inesgotável de ironia e chacota. Alega-se que o que elas querem hoje, após todos os direitos conquistados, é uma soberania em relação ao sexo masculino. Infelizmente, o que realmente surpreende é a quantidade de comentários desinformados e preconceituosos vindo de muitas mulheres. Afinal, os avanços alcançados não só pelas militantes, mas também pelo zeitgeist são inegáveis.

O conceito de lingerie foi inventado por Luís XIV, também criador do salto alto (falei um pouco dele aqui). A palavra vem do francês linge, linho, tecido no qual os trajes inferiores reais eram produzidos devidos às cores claras, que facilitavam a visualização da sujeira. Tanto que a expressão para 'lavar a roupa' na língua do Rei Sol é justamente 'faire le linge'. Contudo, foi somente em 1914 que o soutien como nós conhecemos hoje foi patenteado pela socialite Mary Phelps Jacob.

Profundamente ligada aos padrões estéticos e à subjugação do sexo feminino por derivar dos famigerados espartilhos, o descarte da peça foi nos anos 60 símbolo de libertação. Hoje, olhamos para o item de vestuário como um simples objeto, sem muitas vezes nos atentar que sem a quebra de tabus, talvez não pudéssemos hoje discutir esse assunto abertamente. Aborto, beleza, homossexualidade, infidelidade conjugal. Temas da vida de recorrentes que nunca abandona nem as moças, nem as senhoras. E Hillary Clinton que o diga.

Recém lançada sua candidatura na rede, a ex-primeira-dama já era criticada pela composição da sua logo. Muitos afirmam que ela se assemelha com a bandeira cubana, com o World Trade Center, com placas de trânsito e informativos de hospitais. As opções eram muitas. E segundo uma cientista política da Universidade de Stanford, comentar-se sobre o design da campanha e não sobre a aparência da candidata democrata já era por si uma vitória. Pois apesar de ter sido Secretária de Estado durante o primeiro governo de Barack Obama, quando ouve-se falar dela não é somente em seu marido em quem pensamos, mas também na amante. Monica Lewinsky pode até ter superado o caso, como relatou em uma interessantíssima palestra para a TED Talks, mas a mídia nunca o fará.

Mas nesse instante, não é isso o que nos convém. O que realmente importa neste instante, é um pequeno fato da vida. Não uma regra, mas uma exceção. A história de uma garotinha, criada em meio ao advento da pílula anticoncepcional a qual finalmente deu liberdade sexual às mulheres, que hoje é pré-candidata à presidência da maior economia mundial. E esse é uma aventura que nós deveríamos contar as nossas crianças, independentemente das nossas crenças políticas.

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